Síndrome treacher collins (TCS)

Quem viu o filme Wonder, ainda em cartaz, que conta a história de Auggie (Fig1), um menino com TCS, percebeu quão difícil pode ser viver com esta situação.

Caracteriza-se por uma anomalia craniofacial particular (disostose craniofacial) de gravidade variável com possível compromisso respiratório, oftalmológico, da audição e fala. Descrita pela primeira vez pelo oftalmologista inglês Edward Treacher Collins em 1900, a sua principal causa foi identificada em 1997: alteração no gene TCOF1com transmissão autossómica dominante. Estima-se uma incidência de 1/10000 a 1/50000.

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Clínica (Fig2 e 3)

As anomalias localizam-se à região craniofacial e são habitualmente simétricas. Existe uma hipoplasia dos ossos da face, particularmente da mandíbula e da região malar, incluindo a região zigomática (entre os malares e os pavilhões auriculares) que condiciona muitas vezes uma maloclusão dentaria com dentes mal implantados ou mesmo agenesia. O palato é alto e estreito, com fenda em cerca de ¼ dos casos. Alterações oftalmológicas incluem fendas palpebrais inclinadas para baixo e fora com hipoplasia das pálpebras inferiores (coloboma). Também é frequente ocorrer alteração na forma e localização dos pavilhões auriculares que podem não se ter formado ou ser rudimentares com atrésia dos canais auditivos ou mesmo do ouvido médio e ossículos originando uma surdez de transmissão ou ocasionalmente neurosensorial ou mista. As alterações auditivas e as anomalias da face podem conduzir a problemas da linguagem. Habitualmente não existe défice cognitivo, mas as alterações da audição e fala podem originar algumas dificuldades de aprendizagem. Problemas psicológicos com isolamento e diminuição de auto-estima são frequentes em consequência da percepção do seu aspecto facial particular.

A gravidade das manifestações é muito variável, mesmo em familiares (fig3): nalgumas pessoas as alterações são tão discretas que podem passar despercebidas, enquanto outras têm anomalias faciais muito graves, com quase ausência da mandíbula e grave compromisso respiratório, dificuldades alimentares e mesmo risco de vida.

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Etiologia

A maioria dos doentes (90%) tem uma mutação ou deleção no gene TOCF; 8% no gene POLR1D, sendo em ambos a transmissão genética autossómica dominante. Apenas 1% apresenta alteração no gene POLR1C com transmissão autossómica recessiva.

 

Diagnóstico

O diagnóstico clínico é fácil nos casos típicos, podendo ser difícil nos casos discretos. Nestes, uma radiografia das arcadas zigomáticas evidenciando hipoplasia pode ajudar ao diagnóstico. A confirmação faz-se por estudo do gene TCOF1. Se neste gene não se identificar mutação nem deleção prosseguir com sequenciação do gene POL1D e se este também for negativo e quadro clínico compatível, prosseguir com gene POL1C.

O diagnóstico diferencial faz-se com outras situações de disostose craniofacial, como a S. Nager , a S Miller e a S Goldenhar.

Aconselhamento Genético

A transmissão genética faz-se de forma autossómica dominante em 99% dos casos, pelo que os doentes têm 50% de probabilidade de transmissão à descendência, existindo muitos casos familiares. Outras são situações isoladas em que os pais não têm a alteração e corresponderão a mutações de novo. Neste caso a probabilidade dos pais terem outros filhos com a doença é inferior a 1%. De referir que, os pais deverão ser testados mesmo que aparentemente normais, pois um deles poderá ter uma forma muito subtil. Nos raros casos de transmissão autossómica recessiva por mutação em POL1C a probabilidade de recorrência em irmãos é de 25%, mas baixa para os seus próprios filhos.

Diagnóstico pré-natal ou pré-implantatório é possível nas situações de risco elevado, desde que a alteração genética tenha sido identificada no doente. No caso de feto afectado, a ecografia poderá predizer a gravidade das alterações craniofaciais.

 

Medidas de Vigilância e Terapêutica

Ao nascer, nos casos muito graves, pode ser necessário medidas de reanimação ou mesmo traqueostomia. É importante avaliar a capacidade de sucção e deglutição e intervir se necessário.

É essencial a avaliação oftalmológica e auditiva e eventuais correcções. Terapia da fala é muitas vezes necessário.

As correcções cirúrgicas craniofaciais serão individualizadas de acordo com os problemas de cada doente, mas frequentemente há necessidade de múltiplas intervenções.

Ortodôncia é outra intervenção a ter em conta.

Apoio psicopedagógico deverá ser equacionado.

Referências

-Dixon J, Edwards SE, Gladwin AJ, et al. The Treacher Collins Syndrome Collaborative Group.Positional cloning of a gene involved in the pathogenesis of Treacher Collins syndrome. NatGenet. 1996;12:130-36. http://www.nature.com/ng/journal/v12/n2/abs/ng0296-130.html

-Dixon J, Edwards SJ, Anderson I, Brass A, Scambler PJ, Dixon MJ:Identification of the complete coding sequence and genomicorganization of the Treacher Collins syndrome gene. Genome Res1997; 7: 223– 234.

-Katsanis SH, Jabs EW. Treacher Collins Syndrome. 2004 Jul 20 [Updated 2012 Aug 30]. In: Pagon

RA, Adam MP, Ardinger HH, et al., editors. GeneReviews® [Internet]. Seattle (WA): University of

Washington, Seattle; 1993-2016. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK1532/.

-Trainor PA et al. Treacher Collins syndrome: etiology, pathogenesis and prevention..European Journal of Human Genetics (2009) 17, 275–283

www.rarediseases.org

www.omim.org

www.genereviews.org

 

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