As expectativas dos pais no centro da relação com os filhos

Ser mãe ou pai é para muitos, a concretização de um sonho que queremos que se torne numa das melhores experiências da vida.

Pouco tempo depois da conceção, começam as primeiras expectativas, primeiro para saber o sexo do bebé “Será uma menina linda como a mãe ou um menino com os olhos do pai”? Sem nos darmos conta, começamos a desejar que seja um bebé calminho, que nos deixe dormir à noite e mal damos por nós já têm idade para ir para a escola e as expectativas começam a aumentar cada vez mais e surgem novos sonhos e novos desejos para os nossos filhos.

Mas afinal onde acabam os nossos sonhos

e onde começam os dos nossos filhos?

Todos nós, uns mais outros menos, algures na nossa essência, procurámos alcançar os nossos ideais. Desde muito cedo, sonhámos; criámos expectativas e construímos planos. Alguns ficam para toda a vida, outros podem deixar de fazer sentido com o passar do tempo.

Sempre que alcançamos um sonho, começamos de imediato a criar expectativas para um outro que ainda não realizámos e tudo isto é desejável. Porém, ao longo de nossa trajetória, nem sempre o que desejámos se concretiza e entre o que idealizámos e a realidade podem surgir frustrações, deceções, imprevistos e até situações indesejáveis que precisamos aceitar e aprender a lidar. É assim na nossa vida e não é diferente na parentalidade.

Independente da altura e dos contornos em que a experiência de sermos pais aconteça, vamos desde muito cedo construindo a ideia e um modelo do que é ser pai e ser mãe normalmente baseado nas nossas próprias experiências enquanto filhos, no que tivemos ou não.

É assim, que sem nos darmos conta, começam a chegar, de mansinho, as diferentes expetativas para os nossos filhos.

É muito frequente os pais se sentirem frustrados ou até mesmo impotentes face a comportamentos que eles não desejaram para os seus filhos, que não faziam parte da lista de expectativas e que, enquanto pais julgam errados. Mas será que aquele comportamento, faz algum sentido para quem na realidade o praticou?

Quando se criam expectativas e se idealizam futuros para outros que não nós próprios, corremos o risco de desperdiçar a oportunidade única para conhecer genuinamente o outro, ainda que neste caso se trate do nosso próprio filho. É normal que algumas das expectativas que tínhamos em relação aos nossos filhos não se realizem, pode ser que sejam só as físicas, ou só as psicológicas, que não correspondem, mas também pode ser, que nem o aspeto físico nem o cognitivo nem o psicológico encaixem nos contornos que foram previamente sonhados para aquele indivíduo.

O desenvolvimento de um ser humano é muito mais complexo e muito menos controlável do que aquilo que desejamos. Existem demasiados fatores sobre os quais não podemos ter absolutamente interferência nenhuma e isso, pode gerar   muitas frustrações, que nada mais são do que a consequência negativa das expectativas que criámos.

Lidar com essas frustrações não passa apenas pela aceitação nem tão pouco pelo desinvestimento nos filhos como se já não houvesse nada a fazer. É necessário que haja uma tomada de consciência sobre as causas que originam esse sentimento, que está, provavelmente, associado a expetativas falhadas.

Existem alguns exemplos genéricos que espelham bem esta realidade: tenho a expectativa que o meu filho seja calmo e obediente. Tenho a expectativa que o meu filho se adapte bem à escola e seja bom aluno. Tenho a expectativa que o meu filho seja sociável e amoroso com todos. Tenho a expectativa que o meu filho seja simpático e respeitador. Tenho a expectativa que o meu filho seja do mesmo clube de futebol que eu. E por aí em diante.

Como vimos, é precisamente nesta altura, em que algumas das nossas expectativas começam a não corresponder, que surgem as frustrações dos pais, mas é também nesta altura que podemos fazer escolhas e nesse caso, só me parecem existir duas opções viáveis: passar o resto da vida a tentar de tudo para que os nossos filhos sejam aquilo que esperamos que eles sejam ou aceitá-los como verdadeiramente são!

Este conflito entre realidade e expectativas, pode gerar desentendimentos e desgaste da relação entre pais e filhos e mais do que isso, filhos que deixam de ser e fazer o que precisam ou querem para não defraudar as expetativas dos pais, podem estar a viver uma realidade que não é a sua, deixando de lado, em algumas situações, os seus sonhos e até mesmo a sua identidade.

Para os pais, tudo o que foi falado pode ser entendido, apenas como uma forma de encaminhar, proteger ou até mesmo guiar, mostrando aos filhos o que é melhor, ou o que não traz tantos riscos, contudo, este conjunto de atitudes, que pode parecer inofensivo, é, na maioria dos casos, o principal desencadeador de relações conflituosas entre pais e filhos e até trazer consequências negativas para um normal desenvolvimento emocional por parte dos filhos.

Colocarmo-nos no lugar dos nossos filhos pode revelar-se extremamente útil. Tentar perceber como se sente aquela pessoa, como eramos nós naquela idade. Sairmos de nós mesmos e olharmos para um determinado acontecimento pela perspetiva do outro, ajuda-nos a compreender e a lidar com as diferenças entre aquilo que os nossos filhos são e o que nós esperávamos que eles fossem.

Ser pai e ser mãe exige flexibilidade, capacidade de gerir frustrações face às próprias expectativas, mas possibilita-nos também, a oportunidade única de aprender com a experiência e fazer diferente na próxima vez.

Ser filho, não deverá nunca vir antes de ser individuo que constrói os seus sonhos, conforme as suas motivações individuais, que podem ou não refletir a expectativa dos pais.

É absolutamente fundamental que haja respeito mútuo às singularidades sem perder aquilo que de mais espetacular há num ser humano – Ser único e especial!

 

 

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