A Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade e as dificuldades académicas

A Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade (PDAH) é uma perturbação do neurodesenvolvimento caraterizada por sintomas de desatenção e/ou impulsividade-hiperatividade inconsistentes com o nível de desenvolvimento da criança e com impacto no funcionamento nos diversos sistemas onde a criança se insere (American Psychiatric Association, 2014).

Evidências científicas demonstram uma correlação positiva entre a PDAH e défices nas Funções Executivas (Colomer, Berenguer, Roselló, Baixauli, & Miranda, 2017; Cortese et al., 2015; Sjöwall, Bohlin, Rydell, & Thorell, 2017). Amiúde, a criança e adolescente com PDAH apresentam alterações nas capacidades 1) de organização de tarefas e materiais, de estabelecimento de prioridades, de estimativa do tempo e em iniciar ações, podendo verificar-se comportamentos de procrastinação; 2) de focar a atenção numa atividade e de a alternar entre tarefas, tendo dificuldade em se abstrair de acontecimentos do envolvimento e de pensamentos concorrentes; 3) de sustentar o esforço necessário para a realização de tarefas longas e complexas; 4) de gerir a frustração e modular as emoções; 5) de desenvolver comportamentos de auto-monitorização e auto-regulação, incluindo a dificuldade do controlo dos impulsos e 6) e de competências inerentes à memória de trabalho e rechamada de informação (Brown, 2013).

As crianças e adolescentes com PDAH apresentam frequentemente desempenhos inferiores nas aprendizagens académicas e maior risco de retenção escolar quando comparadas com os pares sem a referida perturbação (Jacob & Parkinson, 2015; Shaw et al., 2012). Nos alunos com PDAH as dificuldades académicas são mais influenciadas pelos sintomas de desatenção do que pelos sintomas de impulsividade e hiperatividade e podem manifestar-se de diferentes formas: 1) na capacidade de aprender ou progredir nos desempenhos académicos expectáveis para os pares da mesma idade, desenvolvimento cognitivo e linguístico, contexto familiar e escolar; 2) na dificuldade em demonstrar o conhecimento ou competências adquiridas em situações de testes, trabalhos de casa ou oralmente (p.e., cometer erros por descuido) e/ou 3) na capacidade de adotar um conjunto de comportamentos facilitadores da aprendizagem e de regulação dos desempenhos (p.e., estratégias de auto-monitorização) (DuPaul & Langberg, 2015).

Atendendo à variabilidade significativa na apresentação e gravidade das dificuldades académicas, a avaliação psicopedagógica é um recurso fundamental na identificação do perfil de aprendizagem do aluno com PDAH. Esta avaliação deverá conter informação que permita a caracterização dos desempenhos académicos do aluno e pode ser obtida através de testes de referência à norma, de desempenhos em tarefas que contenham medidas baseadas no currículo (p.e., número de palavras lidas num minuto) ou outros instrumentos que ilustrem os comportamentos do aluno no contexto em que são requeridos (p.e., em sala de aula) (DuPaul & Langberg, 2015).

No nosso país são escassos os instrumentos de avaliação dos desempenhos de leitura, escrita e cálculo que cubram todos os ciclos de ensino e cujos dados psicométricos possam ser generalizados à população portuguesa, sendo indispensável o recurso aos outros procedimentos de avaliação. A avaliação com base em medidas do currículo permite a determinação precisa do nível de desempenho nos objetivos curriculares, podendo ser realizada com recurso a tarefas e materiais análogos aos do currículo (Little & Akin-Little, 2014). O preenchimento de questionários ou entrevistas estruturadas a pais e professores possibilita a recolha de informação dos comportamentos que evidenciam o impacto das dificuldades dos alunos com PHDA no desempenho de tarefas académicas (p.e., planeamento e execução de trabalhos escolares) (DuPaul & Langberg, 2015).

Uma vez identificadas as dificuldades do aluno, a intervenção deverá ser multimodal. A terapia farmacológica por si só é a mais eficiente no controlo dos sintomas da PDAH (Mcgough, 2014), porém, a combinação de medicação, intervenção cognitivo-comportamental e psicopedagógica poderá ser a mais indicada para a promoção de comportamentos e competências exigidas no contexto académico. A intervenção na PDAH deve realizada por uma equipa de especialistas em estreita colaboração com a família e escola.

No que se refere ao contexto académico, os professores e educadores devem ser informados acerca da perturbação e sobre estratégias de intervenção específicas direcionadas à PDAH e outras dificuldades associadas. Entre outros aspetos, poderá ser indicado a modificação de algumas características físicas da sala de aula (p.e., exposição de trabalhos), a adaptação de tarefas académicas, incluindo a utilização de recursos alternativos (p.e., utilização do computador), o desenvolvimento de tarefas específicas de treino de fluência leitora, escrita e cálculo, a otimização de estratégias de controlo comportamental (p.e., reforços); o recurso a pares/tutores, o ensino de estratégias de controlo da atenção (p.e., auto-monitorização) (Pfiffner & DuPaul, 2015), e a definição e operacionalização de medidas de adequação no processo de ensino e aprendizagem (p.e., condições especiais de avaliação).

Referências Bibliográficas:

American Psychiatric Association. (2014). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. Washington;London: American Psychiatric Publishing.

Brown, T. E. (2013). A New Understanding of ADHD in Children and Adults: Executive Function. New York: Routledge.

Colomer, C., Berenguer, C., Roselló, B., Baixauli, I., & Miranda, A. (2017). The impact of inattention, hyperactivity/impulsivity symptoms, and executive functions on learning behaviors of children with ADHD. Frontiers in Psychology, 8(APR), 1–10. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2017.00540

Cortese, S., Ferrin, M., Brandeis, D., Buitelaar, J., Daley, D., Dittmann, R. W., … Sonuga-Barke, E. J. S. (2015). Cognitive training for attention-deficit/hyperactivity disorder: Meta-analysis of clinical and neuropsychological outcomes from randomized controlled trials. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 54(3), 164–174. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2014.12.010

DuPaul, G. J., & Langberg, J. M. (2015). Educational Impairments in Children with ADHD. In R. A. Barkley (Ed.), Attention-Deficit Hyperactivity Disorder A Handbook for Diagnosis and Treatment (pp. 169–190). New York: The Guilford Press.

Jacob, R., & Parkinson, J. (2015). The Potential for School-Based Interventions That Target Executive Function to Improve Academic Achievement: A Review. Review of Educational Research, XX(X), 1–41. https://doi.org/10.3102/0034654314561338

Little, S. G., & Akin-Little, A. (2014). Methods of Academic Assessment. In S. G. Little & A. Akin-Little (Eds.), Academic assessment and intervention (pp. 3–6). New York: Routledge.

Mcgough, J. J. (2014). Adhd. Oxford; New York: Oxford University Press.

Pfiffner, L. J., & DuPaul, G. J. (2015). Treatment of ADHD in School Settings. In R. A. Barkley (Ed.), Attention-Deficit Hyperactivity Disorder A Handbook for Diagnosis and Treatment. New York: The Guilford Press.

Shaw, M., Hodgkins, P., Caci, H., Young, S., Woods, A. G., & Arnold, L. E. (2012). A systematic review and analysis of long-term outcomes in attention deficit hyperactivity disorder: effects of treatment and non-treatment. BMC Medicine, 10(99).

Sjöwall, D., Bohlin, G., Rydell, A. M., & Thorell, L. B. (2017). Neuropsychological deficits in preschool as predictors of ADHD symptoms and academic achievement in late adolescence. Child Neuropsychology, 23(1), 111–128. https://doi.org/10.1080/09297049.2015.1063595

 

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